domingo, 24 de janeiro de 2016

O QUADRO NÃO É NECESSARIAMENTE PRETO

Resposta a João Álvaro


N’ A Vaca Malhada, no seu número três, tivemos oportunidade de publicar um artigo (assumidamente polémico) sobre a destruição ideológica da sala de aula tradicional (cf. pp. 33‑34). Ora, João Álvaro (doravante: J. A.) teve a generosidade bastante de o ler, mas não lhe coube igual quinhão (hélas!) de paciência hermenêutica. Em verdade, embora nos faça abertamente justiça, reconhecendo que aquilo que escrevemos não pode ser lido como uma defesa da «pedagogia do cacete e da mordaça» [sic], todo o seu texto se constrói, afinal, a partir da tentativa — fruste — de atirar pela janela (como diria Voltaire) o que não é capaz de fazer entrar pela porta. Na base desta prestidigitação cognitiva, encontra‑se, por certo, uma grande confusão conceptual, que gira precisamente em torno do binómio «politicamente correto/politicamente incorreto». J. A. toma‑o, de facto, como um mero sucedâneo semântico destoutro: «politicamente democrático/politicamente fascista». Trata‑se, porém, de um profundo contrassenso. Por muito que custe à mundividência de J. A., esse mesmo binómio atravessa visceralmente a própria democracia, não tendo, pois, uma dimensão transfronteiriça. Na realidade, o culto do que é «politicamente correto» não só nasceu no interior do campus universitário do país que se diz ser uma «democracia perfeita» (a estado‑unidense), como também se instituiu — em termos práticos — como uma espécie de «fascismo da linguagem» (com a devida vénia a Roland Barthes). Consequentemente, o que se configurava, de início, como um instrumento de combate à discriminação social — com vista à superação de estereótipos e preconceitos ­— tornou-se rapidamente o «leito de Procusto» da igualdade abstrata e das narrativas lineares. Disso mesmo é sintoma o discurso de J. A., designadamente, quando atribui, à revelia de qualquer base textual, uma cor particular (neste caso, negra) ao quadro da sala de aula, o qual, naturalmente, dentro do espírito do nosso artigo, não é necessariamente preto, podendo até, de resto, ser eletrónico, por força da evolução tecnológica do aparelho didático.
Em última instância, o que surpreende em toda a estratégia «politicamente correta» de colonização «democrática» do espaço da sala de aula é a manifesta incapacidade de distinguir o regime político da democracia, cujos sujeitos são igualmente soberanos perante a lei, e o universo pedagógico, inevitavelmente hierárquico, no qual, claro está, nem todos os sujeitos estão numa situação de igualdade relativamente ao saber. Se assim não fosse, aliás, a relação pedagógica, enquanto tal, tornar‑se‑ia inútil e desnecessária. Desta reductio ad absurdum resulta, portanto, a demonstração da nossa tese «politicamente incorreta».


In Vaca Malhada, Revista de Filosofia, nº 5 (Outono de 2015), pág. 22.

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