sexta-feira, 26 de outubro de 2018

O URBANISMO UNITÁRIO




Caros leitores da Montr@ d@s Letr@s  d@s Idei@s,

eis o o último número d’A Vaca Malhada! Nesta edição, podeis encontrar um ensaio da minha autoria: «O urbanismo unitário: a crítica de Guy Debord a Le Corbusier»  (cf. pp. 8‑10).

Boas leituras!


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domingo, 14 de outubro de 2018

UMA REVISITAÇÃO SITUACIONISTA DE MAIO DE 1968






Caros leitores da Montr@ d@s Letr@s & d@s Idei@s,

aqui podeis encontrar um artigo da minha lavra: «O MARXISMO CRÍTICO DE GUY DEBORD: UMA REVISITAÇÃO SITUACIONISTA DE MAIO DE 1968» (cf. pp. 195‑208).

Boas leituras!


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quinta-feira, 30 de agosto de 2018

DEVE UM AGENTE RACIONAL ACREDITAR EM DEUS?



À nossa tentativa de resposta à pergunta que encabeça o presente ensaio subjaz uma base argumentativa clássica: o «paradoxo de Epicuro». Além disso, partimos do pressuposto de que é racional o agente que possui uma particular preocupação com a verdade, não se satisfazendo apenas, pois, com a mera articulação instrumental entre meios e fins. Mas também pressupomos, conformemente à natureza normativa da interrogação que nos guia, que é igualmente racional o agente que usa a «navalha de Ockham»: entia non sunt multiplicanda præter necessitatem. Por outras palavras: o princípio da parcimónia exige que não se multipliquem entidades — sem necessidade. Assim sendo, vamos ver em que medida a existência do mal pode sustentar a tese de que é implausível, pelo menos, a visão teísta de Deus.

1.     O «Paradoxo de Epicuro»

Encontra‑se em Lactâncio, pensador cristão dos séculos III e IV, a primeira formulação completa de um paradoxo que ele atribui (inverosimilmente, segundo alguns especialistas[i]) a Epicuro, filósofo grego da Antiguidade. Independentemente, no entanto, da averiguação do seu verdadeiro autor, o que nos importa aqui é a discussão do próprio argumento. Atentemos, portanto, no seu conteúdo original, de acordo com a tradução do texto latino:

Ou Deus, afirma [Epicuro], quer eliminar o mal e não pode; ou pode e não quer; ou não pode nem quer. Se quer e não pode, é impotente [imbecillis], o que não convém a Deus. Se pode e não quer, é‑nos hostil [invidus], o que não convém igualmente a Deus. Se não quer nem pode, é simultaneamente impotente e invejoso; portanto, nem sequer é Deus. Se pode e quer, como é próprio de Deus, de onde vem, então, o mal? e porque não o elimina[ii]?

Procedendo à explicitação do «paradoxo de Epicuro»[iii], temos o seguinte argumento dedutivo:

P1. Deus é omnipotente, omnisciente e moralmente perfeito.
P2. Se Deus é omnipotente, então tem o poder de eliminar o mal.
       C1. Deus tem o poder de eliminar o mal.
P3. Se Deus é omnisciente, então sabe que o mal existe.
       C2. Deus sabe que o mal existe.
P4. Se Deus é moralmente perfeito, então tem o desejo de eliminar o mal.
       C3. Deus tem o desejo de eliminar o mal.
P5. O mal existe.
P6. Se o mal existe, então Deus não tem o poder de eliminar o mal ou não sabe que o mal existe ou não tem o desejo de eliminar o mal.
       C4. Deus não tem o poder de eliminar o mal ou não sabe que o mal existe ou não tem o desejo de eliminar o mal.
P7. Se Deus não tem o poder de eliminar o mal ou não sabe que o mal existe ou não tem o desejo de eliminar o mal, então Deus não existe.
       C5. Deus não existe[iv].

2.     A Resposta de Lactâncio

Como estamos a ver, trata‑se de um argumento válido, cujo encadeamento de premissas e corolários corresponde ao modus ponens. Mas será sólido? Lactâncio diz que não, invocando, para o efeito, a permissão divina do mal em nome de um bem maior, ou seja, o aperfeiçoamento do ser humano. Na realidade, se não conhecêssemos primeiramente o mal, argumenta Lactâncio, não poderíamos conhecer o bem. («Itaque nisi prius malum agnoverimus, nec bonum poterimus agnoscere[v].») Deste modo, afasta‑se, desde logo, a incompatibilidade lógica entre a existência de Deus e a do mal, pondo‑se em causa, precisamente, a quarta premissa. Mais tarde, os filósofos teístas conjugaram o argumento da perfeição moral com a defesa do livre‑arbítrio para tornar mais completa a sua explicação da existência do mal mundano, quer físico quer moral.

3.     A Crítica à Resposta de Lactâncio

A plausibilidade da estratégia argumentativa de Lactâncio confronta‑se com uma grande dificuldade, a saber: o sofrimento dos animais. Como explicá-lo à luz dos argumentos anteriores? Todos eles padecem presumivelmente de um mesmo defeito: o antropocentrismo. Com efeito, os animais não se aperfeiçoam moralmente nem possuem livre‑arbítrio. Ora, se bem que esta objecção à estratégia antropocêntrica dos teístas não elimine a possibilidade lógica de uma compatibilidade entre a existência de Deus e a do mal, apresenta a vantagem, pelo menos, de dar guarida epistemológica à dúvida acerca da legitimidade racional da crença em Deus.

4.     A Legitimidade Racional da Crença em Deus

Se tomarmos como modelo de racionalidade o silogismo prático, será perfeitamente razoável acreditar em Deus. Veja‑se, por exemplo, o seguinte caso:

P1. O agente A tem o desejo D (= ter uma vida eterna).
P2. A acredita que a melhor maneira de satisfazer D é fazer X (= tornar‑se crente).
       C. A faz X.

Mas um agente que se preocupe com a verdade das suas crenças (e não unicamente com a satisfação dos seus desejos) não pode cingir‑se a um tal modelo pragmático. Tem de se interrogar sobre as razões que justificam as suas crenças. No que diz respeito ao teísmo, parece que essas razões não são suficientes para afastar a suspeita de que, ainda que a existência de Deus seja compatível com a do mal, há indícios probatórios (v.g.: a desproporção quantitativa entre o bem e o mal) de que tal compatibilidade se faz à custa do sacrifício do princípio da parcimónia e da inversão do ónus da prova. Efetivamente, os teístas, para defender a sua tese, não só apelam, em última instância, para a nossa ignorância (o desconhecimentos dos desígnios de Deus), mas também para a multiplicação ad hoc de entidades metafísicas[vi].

5.     A Posição Agnóstica dos Agentes Racionais

Dada a razoabilidade da dúvida acerca da existência de Deus, parece que se impõe, a seu respeito, pelo menos, a necessidade epistémica de uma suspensão do juízo. Nisto, naturalmente, convimos com Kant, quando ele afirma a impossibilidade teórica de uma demonstração e/ou refutação da seguinte proposição: «Há um Deus[vii].» Se assim é, de facto, não resta senão a um agente racional, i.e., que se distinga pelas características que acima assinalámos, a assunção da posição que lhe é própria, ou seja, o agnosticismo. Quanto à questão da hipotética redução deste último, em termos práticos, a um ateísmo, eis um problema que já ultrapassa os limites deste ensaio.

Eurico de Carvalho
In A Vaca Malhada, n.º 15 (Primavera de 2018), pp. 20‑21.


[i] Cf. PENWILL, John (2004) — «Does God Care? Lactantius v. Epicurus in the “De Ira Dei”» In Sophia: International Journal of Philosophy and Traditions. Springer Netherlands: 43, 1, p. 40 (n. 26).
[ii] «Deus, inquit [Epicurus], aut vult tollere mala et non potest; aut potest et non vult; aut neque vult, neque potest; aut et vult et potest. Si vult et non potest, imbecillis est; quod in Deum non cadit. Si potest et non vult, invidus; quod aeque alienum a Deo. Si neque vult, neque potest, et invidus et imbecillis est; ideoque neque Deus. Si vult et potest, quod solum Deo convenit, unde ergo sunt mala? cur illa non tolli?» [LACTÂNCIO — «Liber de Ira Dei» (XIII)». In Opera Omnia. Ed. de Thomam Fritsch. Lipsiæ:  1698, p. 587].
[iii] Seguimos aqui a exposição de BRUCE, Michael & BARBONE, Steven, orgs. (2011) — Just the Arguments: 100 of the Most Important Arguments in Western Philosophy. Oxford: Blackwell, p. 36.
[iv] O argumento supracitado não põe totalmente em causa a possibilidade da existência de Deus. Com efeito, abre‑se espaço lógico, designadamente, para um Deus que seja impessoal (por exemplo, o «motor imóvel» de Aristóteles).
[v] LACTÂNCIO, id., p. 588.
[vi] Veja‑se, por exemplo, a invocação de «espíritos maléficos» e de uma «depravação transmundial» por parte de um dos mais importantes filósofos teístas do século XX: PLANTINGA, Alvin (1974) — God, Freedom and Evil. Grand Rapids, Michigan: Eerdemans.
[vii] Cf. KANT, Immanuel (17811/17872) — Crítica da Razão Pura. 7.ª edição. Trad. de Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujão. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2010, pp. 597‑598 [A741/B769‑A742/B770].

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quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Mesinha de Cabeceira [LVII]


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terça-feira, 14 de agosto de 2018

Mesinha de Cabeceira [LVI]


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quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Mesinha de Cabeceira [LV]


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MESINHA DE CABECEIRA [LIV]


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Mesinha de Cabeceira [LIII]


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segunda-feira, 23 de julho de 2018

GUY DEBORD, UM FILÓSOFO PARA O SÉCULO XXI


Se tomarmos como balizas de Novecentos a Revolução Russa (1917) e a implosão da União Soviética (1991), poder‑se‑á dizer que a vida e a obra de Guy Debord (1931‑1994) são inseparáveis da aurora e do crepúsculo do século XX. Com a sua morte, curiosamente, assistimos a uma tremenda explosão editorial. Para Anselm Jappe, a grande razão de ser desse fenómeno prende‑se com a «conspiração da tagarelice», sucedendo esta, aliás, à do silêncio, que selou toda a existência intelectual deste autor. Jappe faz igualmente um severo diagnóstico dos estudos debordianos: «É notória a ausência de análise teórica nos milhares de páginas recentes dedicadas a Debord.» Pelo contrário, as que pretendemos escrever hão‑de estar nos antípodas de uma perspectiva anedótica e psicologizante, que é própria de quem simplesmente nele vê um dandy. Devemos tomá‑lo, portanto, como um filósofo, ainda que ele não se reconheça como tal. Mais: a nossa hipótese de base, cuja demonstração nos cabe fazer, passa necessariamente pela afirmação de que Debord, ao retomar o caminho que vai de Marx a Adorno, consegue reanimar a teoria crítica, pondo‑a a salvo, designadamente, da crise planetária do marxismo ortodoxo. Nessa reanimação anarcomodernista, e de que a superação da arte se perfila como o ponto de partida, cumpre um papel decisivo o conceito de espectáculo, cuja compreensão exige uma distinção categorial entre aparência e simulacro. Na verdade, é absolutamente imprópria a confusão pós‑moderna entre as duas noções, o que contribui, por outro lado, para o erro de uma interpretação pós‑modernista do pensamento debordiano. São implausíveis, por exemplo, as recorrentes aproximações conceptuais entre desvio e desconstrução, deriva e nomadismo e, em especial, espectáculo e simulacro. Porquê? Porque as teorias de Derrida, Deleuze e Baudrillard se baseiam num pressuposto fundamental: a recusa da dialéctica. Para Debord, claro está, essa recusa, dada a sua condição de hegeliano‑marxista, é absolutamente inaceitável.
É por isso que, por muito apelativa que seja, por exemplo, a abordagem biográfica de Vincent Kaufmann, não a podemos fazer nossa. Realmente, está bastante longe do espírito com que empreendemos a presente investigação a defesa de uma tese comparável à seguinte: «Avant d’avoir été un théoricien ou l’animateur de l’Internationale situationniste, ou même un écrivain, Debord s’est voulu enfant perdu, s’est reconnu parmi les enfants perdus.». Eis uma visão «romântica» cuja pertinência hermenêutica pressupõe, sem dúvida, a preponderância da vida sobre a obra. Mas são os textos, em primeiro lugar, e não os actos, que temos de interrogar criticamente. A adopção desta posição metodológica não invalida, contudo, a necessidade de uma articulação entre os dois pólos, tanto mais que vamos discutir as ideias de quem, de si, um dia disse que tinha vivido exactamente como pensava que se deveria viver.
Impõe‑se, pois, o projecto de uma revalorização teórica do legado de Guy Debord. É possível cumpri‑lo de várias maneiras, das quais, basicamente, devemos distinguir duas: (i) a via ontológica e (ii) a via histórico‑crítica. Relativamente à primeira, há quem defenda, de facto, a possibilidade de um resgate ontológico do pensamento debordiano. Embora não a possamos perfilhar, queremos, desde já, discuti‑la, ainda que de uma forma sumária, com vista à clarificação do nosso posicionamento. Ora, toda a ontologia, como é sabido, pressupõe um recorte categorial da realidade, cuja expressão máxima se estrutura habitualmente sob o império axiológico de um molde binário. Donde a multiplicação metafísica de pares conceptuais. De Platão a Heidegger, passando por Kant, alguns tornaram‑se célebres: (i) sensível vs. inteligível; (ii) empírico vs. transcendental; e (iii) ôntico vs. ontológico. Impõe‑se, portanto, a questão: Será que podemos assimilar a tal genealogia filosófica a oposição debordiana entre espectáculo e situação? Num primeiro momento, dir‑se‑ia que sim. Realmente, se o espectáculo é a «organização social da aparência», o seu reverso, a situação, enquanto vivência autêntica, talvez justifique uma leitura essencialista. E se bem que esta aparente um ar sedutor, não nos parece, no entanto, legítima. Aceitá‑la, aliás, acabaria por significar a inscrição dessa antinomia radical num registo sincrónico, com a consequente admissão de uma eventual reconfiguração situacionista dos elementos do sistema espectacular vigente. Como é bom de ver, trata‑se de uma hipótese reformista que, além de ignorar os riscos de espectacularização de todas as reconfigurações criativas das actuais condições de vida, rasura por completo a aposta revolucionária de Guy Debord. Para a respeitar, pelo contrário, é preciso ler diacronicamente o binómio espectáculo‑situação, o que nos remete imediatamente para a segunda via, i.e., histórico‑crítica. No caso de Anselm Jappe, assistimos à tentativa de filiar o discurso debordiano (em cujo autor «não se encontra nenhuma tentativa de fundar uma ‘ontologia’») numa linhagem iluminista, de que a análise marxiana da economia política constitui o expoente. Sob a égide da «nova crítica do valor», valoriza‑se a «teoria do espectáculo» como um dispositivo analítico incontornável do nosso tempo. Assim sendo, há que evitar, quando se discute a noção de espectáculo, dois equívocos que habitualmente se cometem: (i) a crença de que estamos a lidar com um termo estritamente empírico, cujo campo de aplicação se restringe à área sociológica dos mass media; e (ii), de uma forma inversa, a convicção de que se trata de uma ideia metafísica — a desvalorização ontológica das imagens —, da qual, aliás, ninguém ignora a ascendência platónica. Guy Debord, porém, nem é Platão nem McLuhan.
Não nos parece legítima, todavia, a redução da bagagem filosófica de Guy Debord a um único livro: A Sociedade do Espectáculo. Trata‑se de uma falsa imagem da sua obra. Nela assenta, ademais, um obstáculo à compreensão da radicalidade do seu programa estético‑político — o situacionismo —, cuja aposta revolucionária implica a ultrapassagem do plano da pura negatividade, apelando, pois, para o movimento utópico e construtivo de um pensamento que se confronta irremediavelmente com a positividade morta da tradição.

Eurico de Carvalho
In O Tecto, n.º 75 (Outubro de 2012), pp. 2/15.







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Mesinha de Cabeceira [LII]


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sexta-feira, 20 de julho de 2018

Mesinha de Cabeceira [LI]


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quarta-feira, 11 de julho de 2018

Um Novo Blogue

sexta-feira, 22 de junho de 2018

A Vaca Malhada [XV]


Caros leitores da Montr@ d@s Letr@s  d@s Idei@s,

eis o décimo quinto número d’A Vaca Malhada! Nesta edição, podeis encontrar um ensaio da minha autoria: «Deve um agente racional acreditar em Deus?»  (cf. pp. 20‑21).


Boas leituras!

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terça-feira, 27 de março de 2018

A IDEIA SITUACIONISTA DE AUTENTICIDADE


Caros leitores da Montr@ d@s Letr@s  d@s Idei@s,


eis o décimo quarto número d’A Vaca Malhada! Nesta edição, podeis encontrar um ensaio da minha autoria: «A IDEIA SITUACIONISTA DE AUTENTICIDADE»  (cf. pp. 16‑18).


Boas leituras!

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sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Um Artigo sobre Guy Debord



Caros leitores da Montr@ d@s Letr@s  d@s Idei@s,

eis A Vaca Malhada, já no seu décimo terceiro número! Como é habitual, aí tendes ao vosso dispor um artigo da minha lavra: «UIVOS EM PROL DE SADE» (cf. pp. 15‑17).


Boas leituras!

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CONFERÊNCIA DE 13 DE DEZEMBRO



«ESTÉTICA, POLÍTICA E CONHECIMENTO — 5º Seminário Aberto de Investigação (2017)».  —  No âmbito deste encontro, pronunciei, no dia 13 de dezembro, pelas 14h45, na Sala de Reuniões da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, a comunicação que se segue:  A COSMOVISÃO CARNAVALESCA E O PROGRAMA DA I.S.: A PROPÓSITO DE MAIO DE 1968.

Para os leitores desta Montr@, aqui fica o resumo da minha intervenção:

Com propriedade, há quem assinale a «carnavalização» situacionista da revolta de Maio. Assim sendo, pretendemos comparar a cosmovisão carnavalesca, tal como a concebe Bakhtine, com o programa da I.S. Para o efeito, devemos desdobrar quatro categorias que especificam, segundo o autor russo, o modus vivendi do Carnaval: (i) o «livre contacto familiar entre os homens»; (ii) a «excentricidade»; (iii) as «“mésalliances” carnavalescas»; e (iv) a «profanação». Ora, à primeira categoria, que ilustra a revogação pública das hierarquias e das etiquetas, facilmente se associa a valorização situacionista da rua, na sua qualidade de espaço aberto, igualitário e fraterno. Além disso, a segunda, que é inseparável da anterior, articula‑se, por outro lado, pela sua vertente comportamental, com a pesquisa psicogeográfica, ou seja, com a busca experimental e lúdica de paixões e comportamentos que extravasem e subvertam o domínio utilitário da vida quotidiana. Quanto aos «casamentos desiguais», que unem o que a ordem social separa (por exemplo: o sério e o riso; o saber e a ignorância; o alto e o baixo; etc.), podemos associá‑los à crítica situacionista da separação, de acordo com a qual se pretende eliminar as compartimentações estanques da sociedade. (Como é sabido, a I.S. visa à fusão, designadamente, da arte com a vida e, ainda, do jogo com o quotidiano.) Por fim, temos o aspeto mais evidente da ação carnavalesca, i.e., a profanação, de que são equivalentes situacionistas, entre outros, o insulto e o escândalo.
Destas semelhanças, porém, pode resultar a conclusão de que o Carnaval se equaciona com uma situação episódica? Das mesmas, inversamente, pode advir a tese de que a construção de situações não é senão um processo permanente e contínuo de carnavalização? Para ambas as perguntas, como havemos de ver, é negativa a resposta.

Eurico de Carvalho



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quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Mesinha de Cabeceira [L]


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sexta-feira, 13 de outubro de 2017

MESINHA DE CABECEIRA [XLIX]

               Embora seja má a tradução deste livro, vale a pena lê‑lo, tanto mais que são inúmeros (hélas!) os paralelismos que podemos estabelecer entre a situação francesa e a nossa.

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sexta-feira, 6 de outubro de 2017

MESINHA DE CABECEIRA [XLVIII]


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quinta-feira, 3 de agosto de 2017

«O QUADRADO DA MODERNIDADE DE GUY DEBORD»




Caros leitores da Montr@ d@s Letr@s & d@s Idei@s,

aqui podeis encontrar um artigo da minha lavra: «O QUADRADO DA MODERNIDADE DE GUY DEBORD» (cf. pp. 121‑130).


Boas leituras!

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MESINHA DE CABECEIRA [XLVII]


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terça-feira, 25 de julho de 2017

MESINHA DE CABECEIRA [LXVI]


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sexta-feira, 21 de julho de 2017

MESINHA DE CABECEIRA [XLV]


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segunda-feira, 17 de julho de 2017

MESINHA DE CABECEIRA [XLIV]


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sexta-feira, 30 de junho de 2017

MESINHA DE CABECEIRA [XLIII]


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quarta-feira, 28 de junho de 2017

MESINHA DE CABECEIRA [XLII]


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quarta-feira, 14 de junho de 2017

A VACA MALHADA [XI]

Caros leitores da Montr@ d@s Letr@s  d@s Idei@s,

eis A Vaca Malhada, já no seu décimo primeiro número! Como é habitual, aí tendes ao vosso dispor um artigo da minha lavra: «Donald Trump & os Filósofos» (cf. pp. 20‑21).

Boas leituras!


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segunda-feira, 12 de junho de 2017

MESINHA DE CABECEIRA [XLI]


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segunda-feira, 8 de maio de 2017

MESINHA DE CABECEIRA [XL]

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quarta-feira, 3 de maio de 2017

MESINHA DE CABECEIRA [XXXIX]


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segunda-feira, 27 de março de 2017

MESINHA DE CABECEIRA [XXXVIII]


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quarta-feira, 15 de março de 2017

A VACA MALHADA [X]


Caros leitores da Montr@ d@s Letr@s & d@s Idei@s,

já está disponível o décimo número d’A Vaca Malhada! Aqui podeis encontrar um texto da minha lavra: «Sete Paradoxos do País da Identidade» (cf. p. 23).

Boas leituras!


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segunda-feira, 13 de março de 2017

MESINHA DE CABECEIRA [XXXVII]


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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

MESINHA DE CABECEIRA [XXXVI]






Caros leitores da Montr@ d@s Letr@s & d@s Idei@s,

aqui podeis encontrar um artigo da minha lavra: «Uma leitura de Mente e Mundo de John McDowell» (cf. pp. 27‑39).


Boas leituras!

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segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

MESINHA DE CABECEIRA [XXXV]


quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

A VACA MALHADA [IX]


Caros leitores da Montr@ d@s Letr@s & d@s Idei@s,

já está disponível o nono número d’A Vaca Malhada! Aqui podeis encontrar um artigo da minha lavra: «Ser Professor em Tempos de Indigência — Discurso sobre a Servidão Involuntária» (cf. pp. 24‑25).


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quarta-feira, 30 de novembro de 2016

DIÁLOGO XIX


A — Deixa‑me sonhar!
B — Mas quem disse que eras tu o autor dos teus sonhos?






AUTOR: O Agnóstico
RELATOR: Eurico de Carvalho


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quarta-feira, 23 de novembro de 2016

MESINHA DE CABECEIRA [XXXIV]


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segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Uma Lição de Gastronomia



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ANUNCIAÇÃO


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O Problema da Edição de Poesia


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quarta-feira, 28 de setembro de 2016

A VACA MALHADA [VIII]


Caros leitores da Montr@ d@s Letr@s & d@s Idei@s,

já está disponível o oitavo número d’A Vaca Malhada! Aqui podeis encontrar um artigo da minha lavra: «O Fim da Escola» (cf. pp. 20‑21).

Boas leituras!


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sexta-feira, 12 de agosto de 2016

MESINHA DE CABECEIRA [XXXIII]


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quarta-feira, 20 de julho de 2016

MESINHA DE CABECEIRA [XXXII]


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quinta-feira, 14 de julho de 2016

MESINHA DE CABECEIRA [XXXI]


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quarta-feira, 6 de julho de 2016

MESINHA DE CABECEIRA [XXX]



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sexta-feira, 1 de julho de 2016

Uma Entrevista sobre Poesia


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MESINHA DE CABECEIRA [XXIX]


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segunda-feira, 27 de junho de 2016

A VACA MALHADA [VII]

Caros leitores da Montr@ d@s Letr@s & d@s Idei@s,

já está disponível o sétimo número d’A Vaca Malhada! Aqui podeis encontrar um artigo da minha lavra: «O Professor de Filosofia: entre Sócrates e Alcibíades» (cf. pp. 26‑27).


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quinta-feira, 9 de junho de 2016

MESINHA DE CABECEIRA [XXVIII]


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terça-feira, 3 de maio de 2016

METAMORFOSE





(À memória do escritor que capturou a décima primeira letra do alfabeto latino.)

Não são muitas as palavras que possuem o privilégio, desde logo, de remeter o ouvinte para um particular universo literário. Dessa família aristocrática faz certamente parte a que nos trouxe aqui. Não se afigura ser possível, com efeito, invocar a metamorfose — sem que perpasse entre nós a sombra subitânea de um peculiar caixeiro-viajante. Quem não conhece a história de Gregor Samsa? Sabemos que um belo dia despertou — e não se reconheceu. Sem saber como nem porquê, transformara‑se num formidável insecto. Por obra e graça de Kafka, a estranha personagem (barata? besouro? escaravelho?) tornou‑se o pesadelo de milhões de leitores. Muitos deles, pelo menos, postos perante tal relato (kafkiano, doravante), não deixaram, nesse mesmo tempo, de recear — pela primeira vez — os dulcíssimos abraços de Morfeu. E, dormida a noite, com certeza que sentiram, ao acordar, o sublime alívio pelo facto de o espelho lhes devolver o costumeiro semblante. Tudo à volta, no entanto, passara a ter o perfume indiscreto de uma linguagem antiga e sacrificial. E assim se dizia adeus à falsa nova da inocência das coisas.
Outras transformações há, porventura, que nada devem à melancolia genial de um obscuro judeu de Praga. Existem realmente metamorfoses que não são pragas, mas maravilhas da Natureza. Veja‑se o caso paradigmático da crisálida, de que resulta, aliás, finda a primitiva condição larvar, o soberbo resplendor da borboleta primaveril. Do caçador que dela busque, então, a beleza esvoaçante, sob a imensa campânula do Sol, só queremos que, a manter‑se a imagem, falhe a rede. Tanto o homem quanto o lepidóptero, é certo, merecem a eternidade do movimento. Deixemo‑los, pois, correr, como se fossem pasto de um velho cinematógrafo, todo o campo tranquilo do olhar. 
Além da entomologia e das suas extravagâncias, quer literárias quer científicas, havemos finalmente de encontrar o melhor símile metamórfico. Onde? Nessa passagem luminosa, que já pertence ao reino da pedagogia, que traz o infante — aquele que ainda não fala — de regresso a si, isto é, à sua forma humana. Nessa mesma passagem, a da ignorância à sabedoria, sempre se repete o gesto que une as gerações, impedindo‑as precisamente de partir do zero. Do oleiro maior deste processo, em cujas mãos a nossa matéria se torna argila dócil, nem sequer urge dizer o nome. Basta apenas que se cultive em casa — dia a dia — a sua interminável homenagem.

Eurico de Carvalho
 In «O Tecto»,
Ano XII, nº 89,
 ABRIL/2016, p. 3.

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