sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

CATARINA EUFÉMIA: 70 ANOS DEPOIS

 

Nos setenta anos do assassínio infame de Catarina Eufémia (triplamente baleada pelas costas — e com um filho nos braços — por um esbirro da G. N. R.), Baleizão já não é o que era: torrão sagrado do Partido Comunista. Da hagiografia da resistência ao Estado Novo, que morreu de velho, resta agora a estátua — a heroificar a revolta de quem queria apenas pão que matasse a fome dos seus.

Quanto ao Alentejo, que nunca foi o “celeiro de Portugal” da mitologia salazarista, tem perdido o amarelo das searas — em prol de um mar cinzento de estufas e painéis solares. E, por entre milhares de imigrantes que aí trabalham, miseravelmente pagos e explorados pelas redes de tráfico de pessoas, novas Catarinas haverá? De outras cores e falas, quantas gritaram já — sem voz? Não temos certezas, mas as lonjuras alentejanas continuam a ser o que sempre foram: grande pasto das dores dos humilhados e ofendidos da Terra.

 

Eurico de Carvalho

 

In Expresso, n.º 2 691 (24 de Maio de 2024), p. 33.


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