CATARINA EUFÉMIA: 70 ANOS DEPOIS
Nos
setenta anos do assassínio infame de Catarina Eufémia (triplamente baleada
pelas costas — e com um filho nos braços — por um esbirro da G. N. R.),
Baleizão já não é o que era: torrão sagrado do Partido Comunista. Da
hagiografia da resistência ao Estado Novo, que morreu de velho, resta agora a
estátua — a heroificar a revolta de quem queria apenas pão que matasse a fome
dos seus.
Quanto
ao Alentejo, que nunca foi o “celeiro de Portugal” da mitologia salazarista,
tem perdido o amarelo das searas — em prol de um mar cinzento de estufas e
painéis solares. E, por entre milhares de imigrantes que aí trabalham,
miseravelmente pagos e explorados pelas redes de tráfico de pessoas, novas
Catarinas haverá? De outras cores e falas, quantas gritaram já — sem voz? Não
temos certezas, mas as lonjuras alentejanas continuam a ser o que sempre foram:
grande pasto das dores dos humilhados e ofendidos da Terra.
Eurico
de Carvalho
In Expresso, n.º 2 691 (24
de Maio de 2024), p. 33.
Etiquetas: FARPAS
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