segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

PARA UMA NOSOGRAFIA DO SISTEMA DE ENSINO

Um primeiro passo para a vera reflexão pode ser — simplesmente — a humílima tarefa de ouvir as palavras, retirando-lhes o pó do hábito que nos cega para o seu batimento cardíaco. Atentemos tão-somente em dois vocábulos: educação e escola. Haverá melhor lugar do que um espaço filosófico — pergunto eu — para refletir sobre o seu significado? Comecemos, pois. Que deve entender‑se por educação? Consultemos a etimologia: verifica-se a presença de «ducere», que em latim significa «conduzir». Assim sendo, a educação não é senão a condução do homem. Mas o ato de conduzir implica saber «onde se está» e «para onde se vai». Por outras palavras: a educação pressupõe um princípio fundamental e uma finalidade última. A sua determinação exige que se responda à sequente questão:
— Por que razão o homem precisa de ser conduzido?
Isso resulta apenas do facto de ele não surgir enquanto tal, ou seja, enquanto homem. Na verdade, o homem só se faz homem no meio de outros homens. Sem a condução de outrem, portanto, a qual se cumpre em nome de um certo ideal, o homem nunca poderia vir a ser o que realmente é: o único ser cuja natureza está na sua história. É própria do homem a falta original de algo que lhe seja naturalmente próprio. A sua indeterminação nativa — a sua miséria à nascença — é, pois, o princípio fundamental que justifica a existência da educação, cuja finalidade última salta à vista: tornar o homem humano. Não o sendo imediatamente, refém inicial relativamente à humanidade, o homem tem na educação o «medium» da sua humanização, que o orienta para o destino que é o seu: realizar-se a si próprio. Quer isto dizer, todavia, que há certamente o perigo de que ele não se torne o homem que é, que é próprio do homem correr o risco não só de não ganhar, mas perder a sua condição humana. Está a inumanidade atrás de si, sem dúvida, nessa figura imediata, infante, quase límbica, mas igualmente à sua frente, porventura liberta pela terrível imaginação de quem não sabe onde está nem para onde vai.
Agora, auscultemos o coração de um antiquíssimo lexema impoluto, mas que hoje, infaustamente, se tornou presa da hábil demagogia da alegre tribo internacional dos tecnocratas. Quero dar-vos a ver um signo helénico, que se tornou, pela via da sua latinização em schola, um termo universal, e cujas ressonâncias civilizacionais merecem a mais atenta escuta. Afinal, se prestarmos atenção à substância do étimo grego, será nosso o espanto, quando descobrirmos que o seu significado original aponta para a «ocupação de quem se encontra em descanso». Em si mesma, é verdade, num tempo que cultiva obsessivamente o trabalho, parece paradoxal a expressão. Qual poderá ser, de resto, essa atividade de quem permanece em repouso? Como pode estar ativo um sujeito que, aparentemente, nada faz? Avolumam-se as perplexidades, porque vivemos num meio cultural que privilegia falsas oposições, de que o binómio lazer/labor constitui a súmula insuportável. Para que lhes possamos responder, urge imolar estereótipos e preconceitos mediáticos. Há todo um espaço mental atravancado pela velha mobília do «aparelho ideológico do Estado». Há que limpá-lo, o que exige, pelo menos, a tremenda audácia cinzenta de um adversário hercúleo do dispositivo audiovisual de controlo cor-de-rosa das almas. Expulsemos, então, da nossa casa maior, a do pensamento, a criada de servir do poder! Não sejamos tímidos! Agarre-se a senhora pelo colarinho da estupidez, dando-lhe como destino o caixote do lixo! Realmente, para devolver o brilho original do santuário da cultura, não nos resta senão a longínqua possibilidade de uma ruína do espetáculo. Assim, se quisermos dar razão à língua natal do «amor ao saber», ter-se-á em mente a escola como «lugar do ócio». Tomá-la enquanto tal, neste século absurdo de um capitalismo triunfante, é já, sem dúvida, um ato de desobediência civil, tanto mais que nós, professores, queremos honrar diariamente essa agência maior da sociedade, pese embora a série fúnebre de fatores que ameaçam a sua integridade funcional: (i) a proletarização da classe docente; (ii) a desnaturação clientelar da relação pedagógica; (iii) a subversão assistencialista do paradigma escolar; (iv) a mercantilização dos valores cognitivos; (v) o inverno demográfico; e (vi) a desqualificação das funções sociais do Estado. Não há que ver nesta lista, no entanto, uma enumeração exaustiva, da qual, naturalmente, adviria o rompimento dos estritos limites de um simples artigo.
Ora, pesar a legitimidade das consequências desse mesmo ato de desobediência civil significa a recusa militante de todo o discurso neoliberal, responsável por esse ominoso incremento de uma política de mercantilização do sistema de ensino. Mas a escola não é uma fábrica, o que não implica que a atividade ociosa de quem nela habita se confunda com o exercício da preguiça, esse indigente intervalo entre duas jornadas de puro embrutecimento do espírito. Pelo contrário, o ócio apela para o que há, na humanidade do homem, de essencial: a disponibilidade para aprender e pensar. Consequentemente, querer alimentar o negócio — o que nega o ócio — a partir de uma desnaturação empresarial do universo escolar é próprio de fariseus. Tanto a escola como a fábrica são máquinas de projetar imagens sobre o mundo. Que a segunda esmague ideologicamente a primeira, eis o desastroso estandarte dos tempos que nos coube viver. Derrubá-lo é, por certo, não só um imperativo moral, mas uma exigência estética.

 In Vaca Malhada, Revista de Filosofia, nº 4 (Verão de 2015), pp. 23‑24.


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