sexta-feira, 3 de agosto de 2007

SÍTIO DAS ÁGUAS


Hoje vou escrever um poema

para as pessoas lerem o que lá não está escrito,

que esta foi sempre a maneira — disseram‑me em criança —

de conseguir o eterno na memória dos outros.


Um poema que será, assim o queira, de quantas palavras

for o mundo feito

nas contas inúteis de um louco.

Louco? Não! Que nunca andou na escola.


Um poema de forma qualquer marinheiro, talvez

de águas situadas na página quarenta e tal

de um livro a editar no futuro em doze exemplares

(por faltarem leitores e dinheiro para mais).


Mas hoje, que vou escrever um poema

para as pessoas lerem o que lá não está escrito,

para essas, claro, que andaram na escola

e fizeram os trabalhos de casa com as palavras do Mestre,


logo hoje!, hoje ainda de um dia exacto como tantos,

sei que me esqueci completamente

de ver se o mar

estava no sítio das águas:

à minha janela,

para além de mim.




Eurico de Carvalho

In «O Tecto»,

Ano XVIII, n.º 56,

Julho/2007, pág. 13.

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