sexta-feira, 3 de agosto de 2007

INTRODUÇÃO À LEITURA DE QUINZE DIÁLOGOS MINIMALISTAS

Modo de Usar

1. Embora surjam com a aparência de figuras abstractas, A e B devem ser compreendidos como verdadeiras personagens; não há que tomá‑las, pois, como posições conceptuais, i.e., redutíveis, por exemplo, de acordo com a cartilha hegeliana, à tese e antítese, respectivamente.

2. Sob o pano de fundo da observação anterior, não podemos perspectivar o autor textual, fictício, como sendo o putativo lugar da síntese bem‑soante.

3. Ironicamente investido de autoridade, por força da ressonância semântica do seu nome próprio, o autor desempenha uma função essencial: operar uma transformação da leitura inicial, perturbando‑a, com a consequente elevação do seu nível de complexidade.

4. O ponto de vista autoral não se confunde com o de A nem com o de B; se isso acontecer, será claro sinal do fracasso do diálogo, na sua qualidade de objecto dialéctico (no sentido kantiano do termo).

5. A distinção entre personagens e autor adquire aqui um valor operatório: marca a passagem da vida para o pensamento — e a (im)possibilidade de captura daquela, singularidade concreta, por este último, pura abstracção.

6. Não se veja no sujeito nominal dos diálogos o alter ego do relator. Dada a diferença ontológica que os separa, aliás, irreversível, não podemos legitimar a redução retórica da autoria à dimensão linear de um mero exercício de pseudonímia.

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DIÁLOGO 1

A — Quem és tu?

B — Não sabes? Vê bem!

A — Incrível! Estás vivo? Como? Eu matei‑te!

B — Sim, mas não morri! Enquanto existires serei imortal…

Autor: O Moralista

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DIÁLOGO 2

A — Se me amasses tanto, meu amor, como te amo a ti, não dirias que não!

B — E eu? Não poderei dizer o mesmo?!

Autor: O Céptico

DIÁLOGO 3

A — Permitir‑me‑á, meu caro senhor, o ousio de lhe dirigir uma pergunta?

B — Força!

A — É isso mesmo! Que significa?

B — O quê?

Autor: O Lente

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DIÁLOGO 4

A — Querida, estás a dormir?

B — Sim, meu amor…

Autor: O Cínico

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DIÁLOGO 5

A — Dê‑me lume, por favor!

B — Já lhe disse que é proibido fumar…

A — Mas posso vê‑lo melhor — ou não?

Autor: O Comediógrafo

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DIÁLOGO 6

A — Uma esmolinha, por amor de Deus!

B — Por amor de quem?

A — Deus, mãe dos céus!!!

B — Deus é mulher?...

Autor: O Metafísico

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DIÁLOGO 7

A — Já não acredito em ninguém!

B — Nem mesmo em ti?

Autor: O Inquisidor

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DIÁLOGO 8

A — Com solenidade o digo: — A electricidade matou os fantasmas.

B — Mas será possível matar o que nunca existiu?

A — Enganas‑te! Queres tu coisa mais real que o próprio mito?

Autor: O Paleólogo

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DIÁLOGO 9

A — Queres fazer amor?

B — Com quem?

Autor: O Analista

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DIÁLOGO 10

A — Ter consciência da morte é o maior dos males.

B — Discordo absolutamente!

A — Qual é, pois?

B — A ânsia assassina de ser imortal.

Autor: O Tautólogo

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DIÁLOGO 11

A — Será biodegradável o entusiasmo pelo saber?

B — Da sabedoria, claro, não são sinais os cabelos brancos. É isso?

A — Que leitura simplista! Atenta nisto apenas: a máquina aniquilou o exercício heróico do possível.

B — Agora, sim, sinto-me iludido pelas tuas palavras, qual campónio atarantado pelo ruído da grande cidade!

Autor: O Ecólogo

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DIÁLOGO 12

A — Não acreditas que os padres acreditem em Deus?

B — Não sejas ingénuo!

A — Haveriam de crer em que?

B — Em tudo o que a boca deles cala o mais que pode.

Autor: O Teófilo

DIÁLOGO 13

A — Será possível que haja ainda gente capaz de afirmar a existência do Paraíso?

B — Cada vez mais! O Inferno alastra sobre a Terra.

Autor: O Teólogo

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DIÁLOGO 14

A — Não me digas que gostaste deste livro…

B — Muitíssimo!

A — Ora essa! Porquê?

B — Deu‑me imensa vontade de o ler!

Autor: O Iconoclasta

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DIÁLOGO 15

A — Quem bate à porta?

B — A Morte!

A — Tarde de mais! Já fechámos a loja.

Autor: O Político

Relator: Eurico de Carvalho

In «O Tecto»,

Ano XVIII, n.º 56,

Julho/2007, pág.7.

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