sexta-feira, 24 de setembro de 2010

A DESMESURADA SOMBRA DA VELHICE


O último romance de valter hugo mãe — a máquina de fazer espanhóis — tem o mérito de trazer o leitor para o centro de uma tempestade silenciosa, mas cujos efeitos corrosivos, é certo, galgam paulatinamente a fronteira da visibilidade social. Estamos a falar de uma inelutável «bomba demográfica»: o envelhecimento progressivo da população portuguesa. Ora, enquanto estrita resposta instrumental a um fenómeno típico do Ocidente (resultante, aliás, e entre outros factores, da evolução da medicina e da baixa taxa de natalidade), emerge a figura institucional do «lar de terceira idade», que serve exactamente de cenário, ou melhor, de autêntico palco dantesco, à narrativa de valter hugo mãe.
Não sendo este o momento nem o lugar para a desmontagem literária d’a máquina de fazer espanhóis[1], gostaríamos tão‑somente de orientar a presente reflexão sob a influência estratégica de três vectores analíticos: o psicológico, o ético e o metafísico. Trata‑se de levar a cabo a empresa, todavia, e na medida do possível, com os recursos imagéticos da própria obra e, em particular, do olhar do seu protagonista, António Silva.

1.                       O Vector Psicológico — A Experiência do Envelhecimento

Com a morte da mulher, Laura, nome sintomático, António Silva inicia a sua descida aos Infernos (descensus ad Inferos). Atentemos, por exemplo, nesta passagem do romance: «a laura morreu, pegaram em mim e puseram‑me no lar com dois sacos de roupa e um álbum de fotografias» (pág. 29). Deste ponto de vista, a entrada no Lar da Feliz Idade representa a perda do controlo sobre a própria vida, ou seja, a falência da subjectividade autónoma. De resto, estamos perante uma ideia que se reafirma ao longo de toda a obra, e cuja ilustração mais crua parece ser a que se dá a ler na página 123: «nós estamos para aqui metidos como animais domésticos, limitados e cheios de necessidade de cuidados». A violência da imagem («animais domésticos») assinala a despersonalização como uma consequência do isolamento sanitário dos idosos. Por força da sua institucionalização, a experiência do envelhecimento deixa de ser uma etapa normal de um processo activo e autobiográfico, passando a constituir a cartografia de uma degradação irreversível do corpo, isto é, de um mero objecto clínico. Como diz o António Silva, «vamos morrendo devagar, mais devagar do que parece» (pág. 58). Se assim é, de facto, a vida num lar é já uma morte, porque «ser‑se velho — como diz o «esteves cheio de metafísica» — é viver contra o corpo» (pág. 149). Que longe estamos, pois, do apregoado slogan de um envelhecer saudável!


2.                       O Vector Ético — A Questão da Eutanásia

Com a plena consciência de que o falecimento de Laura lhe trouxe a fronteira que separa o amor do ódio e a vida da morte, António Silva descreve a sua última morada nos termos que se seguem: «o lar da feliz idade, assim se chama o matadouro para onde fui metido» (pág. 62). Trata‑se de um comentário cruel, mas que alimenta as fantasias de eutanásia activa e as suspeitas de crime de várias personagens. Veja‑se, por exemplo, a especulação do Sr. Pereira: «era certo que o feliz idade tinha interesse em despachar aqueles que morreram, já só ligados a máquinas e a comerem por agulhas» (pág. 144). No entanto, e em relação à referida conjectura, a longevidade vegetal do Sr. Medeiros constitui evidente elemento contrafactual.
Indo além do plano romanesco e das hipóteses policiais, era um facto que o Lar da Feliz Idade, à semelhança de qualquer outro, «estava sempre de luto» (pág. 170). Neste contexto, coloca‑se a questão de saber se não estamos perante uma máquina social susceptível de gerar um ambiente em que os idosos sejam encorajados a deixar‑se morrer devagar e calmamente, sentindo‑se, portanto, culpados por resistir. Note‑se que a possibilidade desse encorajamento constitui, segundo alguns filósofos, uma objecção muito forte à legalização da eutanásia, quer activa, quer passiva.

3.                       O Vector Metafísico — A Consciência da Morte

O último lexema do livro — angústia — é um termo nuclear da filosofia existencial e está, por isso mesmo, cheio de metafísica. Trata‑se de um conceito que não pode ser o equivalente do medo, na medida em que este último, contrariamente àquele, possui um objecto, o qual, aliás, por força da sua variação empírica, permite a constituição de todo um inventário de múltiplas e diversas fobias. Ora a angústia configura‑se, na sua substância conceptual, como o medo do nada. (Aqui, portanto, não há cão nem mulher que nos valha.) Para lhe dar resposta e cicatrizar a imemorial ferida narcísica, a humanidade inventou o remédio possível: Deus. E nisto, de resto, António Silva recita a clássica ladainha: «deus é uma cobiça que temos dentro de nós» (pág. 225). Essa «cobiça», como estamos a ver, não é senão o desejo de imortalidade.
Na sua última morada, parece evidente uma incessante oscilação do ser do António Silva. Há como que, dentro de si, um balanço entre dois pólos magnéticos: de um lado, a Nossa Senhora de Fátima, a Mariazinha; do outro, o Esteves sem metafísica, e cuja presença neste romance merece ser saudada, sem dúvida, como um verdadeiro achado intertextual. Assim, e sob o pano de fundo destas figuras, surge o velho contraste entre a salvação religiosa e a imortalidade literária. Eis um binómio cultural susceptível de alimentar uma urgente reflexão sobre os caminhos da civilização ocidental. Não nos cabendo a responsabilidade, porém, de satisfazer essa urgência, seria importante destacar, atendendo ao nosso horizonte literário, a via do António Silva. Pela amizade que manifesta — até à morte — pela putativa personagem da Tabacaria, de Fernando Pessoa, e considerando ainda o seu gosto pela poesia, que acaba por ser manifesto a partir do momento em que assume a escrita, em nome de outrem, de cartas de amor, estamos perante, de facto, o indelével fascínio por alguém que se imortalizou através do verso. E parece que esse fascínio, numa derradeira instância, se sobrepõe à simbologia maternal da Mariazinha, cujo incerto conforto sentimental desperta nele, António Silva, já liberto das amarras do matrimónio, um puro horror intelectual.


Eurico de Carvalho

In «O Tecto»,
Ano X, n.º 68,
Setembro/2010, p.7.




[1] Pelas 17h do dia 17 de Junho de 2010, e por ocasião de um colóquio dedicado à supracitada obra de valter hugo mãe, o presente escrito serviu de suporte textual à intervenção do autor. Queremos também aproveitar a oportunidade para agradecer o amável convite que nos dirigiu, para o efeito, o Dr. Amorim Costa.  

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