quarta-feira, 22 de setembro de 2010

TRÊS CONTOS DE UM CENTO




I

UMA RECORDAÇÃO DE INFÂNCIA DE LEONARDO DA VINCI




«Estava eu no berço, quando um abutre desceu sobre mim e me abriu a boca com a cauda. Bateu‑me várias vezes com ela nos lábios. Esse parece ser o meu destino.» Qual? Querendo desembrulhar o segredo, a mente de Sigismundo fitou lentamente a estatueta egípcia com que marcava a página do caderno de Leonardo: «Ei‑la! a ave da morte, hieróglifo da mãe!» E, com a certeza do erro da tradução alemã, registou para sempre a sentença: «fantasia homossexual passiva». Desde esse dia, do milhafre, a cauda longa e volumosa assombra a análise.
II

O APRENDIZ DE VERROCCHIO

A notícia galgou a loja e rompeu pelas ruas de Florença: o bastardo pintara o anjo mais vivo do quadro do mestre! Estava pronta aquela que seria a derradeira pintura de Andrea del Verrocchio: Baptismo. Porque simplesmente emudecera perante o toque devoto da mão esquerda desse rapaz de pouquíssimas falas. Dele apenas, o anjo, qual recém‑nascido, de inéditos caracóis bastos, reconhecia agora a leveza do céu. De vergonha, porém, corava surdamente o pincel cheio de terra das restantes figuras. Resignou‑se a ser por isso mesmo (com o orgulho infindável dos fortes) o famoso ourives que era. 

III

FUGA DO ÚLTIMO PATRONO DE LEONARDO

Febril, a pena corre sobre o papel. Francisco I, rei de França, lembra à mãe a honra que lhe resta, que a vida está salva. Prisioneiro em Madrid, nem a morte, que era a sua arma, fora avante. Esquece o frio recordando as conversas com Leonardo. No Palácio de Verão, ressoava a pergunta: «Que é mais próximo do homem: seu nome ou imagem?» O pintor defendia a soberania do visível. Mas só um uomo senza lettera poderia desconhecer a real grandeza do nome. Que um rei se disfarce, pois, de escravo negro — e fuja!
Eurico de Carvalho

In «O Tecto»,


Ano X, n.º 68,


Setembro/2010, p. 14.



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