terça-feira, 21 de março de 2006

AO POETA QUE HÁ EM TI

Ouve, ó tu, que vês eu nem sei
lá florir um sim de bocas,
bocados de camponesa e de manhã,
pela tarde fora a rosa declinada
em latim de maio que toda a gente entende;
tu que dizes ser o que procuras,
alguma vogal limpa ainda de frase,
desinteressada do texto quase
cansaço de palavras há tempo demasiado
nos lábios de quem lê;
tu, tu que me deixas os dedos ardidos
aquando das mãos no nada em que nado
nestes dias, nestas noites inconseguidas
de luar
e de valium;
tu e tu, qual arremedo de segunda pessoa
de um singular que se me afigura
pouco original,
orto de ti e de tudo,
cheirando a rima encadeada,
guisado de letras em verso

seguinte; tu que vendes emoções a metro,
tu que beijas até com os pés
a flor morta, distraindo a estrofe
com um ritmo de jazz em vésperas
de edição aplaudida ainda
e antes do prelo...

Ao poeta que há em ti, que não sei quando
dele houve o merceeiro das águas,
te peço a hora
ora por uma vez,
voz e só,

houveste.


Eurico de Carvalho

In Campo Alegre — Colectânea de Poemas,
Porto, 1986.

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