terça-feira, 7 de março de 2006

LIVRO DE CABECEIRA [I]



«O fim da dialéctica da modernidade não engendrou o fim da dialéctica da exploração.»

Hardt, M. & Negri, A. (2000)

A obra cujo título cumpre agora o destino de letreiro deste artigo, dando corpo à minha sugestão de leitura, é também a primeira de uma nova colecção: «Rupturas». Pelo facto de a ter publicado em Abril de 2004 (e não poderia ter sido melhor o mês do seu lançamento!), está de parabéns uma velha editora: «Livros do Brasil». Bem servido pela competência do respectivo tradutor, Miguel Serras Pereira, Império, que aspira a ser o vade‑mécum de uma esquerda militante e utópica, constitui (não tenhamos medo das palavras!) uma obra‑prima de filosofia política, ou antes, de filosofia tout court. Com efeito, para os autores, que retomaram criticamente a lição de Marx (que é hoje tratado como um «cão morto» por quem nunca o leu!), a filosofia, ao invés do que pensava Hegel, «não é a coruja de Minerva que levanta voo depois de terminada a história a fim de celebrar o seu fim feliz; a filosofia é antes proposição subjectiva, desejo e práxis aplicados ao acontecimento» (pág. 68). Que acontecimento é este que, de acordo com uma ontologia do presente, singulariza a nossa condição de pós‑modernos? A resposta só pode ser uma: a globalização. À revelia da cartilha esquerdista, porém, não se procede aqui à diabolização da nova ordem mundial. Muito pelo contrário, «a globalização — na medida em que opera uma desterritorialização real das antigas estruturas de exploração e controlo [imperialistas] — é realmente uma condição de libertação da multidão» (pp. 71‑2). Assistimos (eis a hipótese fundamental do livro) a uma mudança de paradigma: com o declínio do poder dos Estados‑nação, surgiu uma nova forma global de soberania, da qual Império pretende ser o nome. Por oposição ao imperialismo, que era realmente um fenómeno eurocêntrico, representando por isso mesmo o fim da modernidade, aquele conceito compreende «um aparelho descentralizado e desterritorializante de governo» (pág. 12). Rejeita‑se assim o modelo unipolar das relações internacionais, segundo o qual, após a queda do Muro de Berlim, restando apenas uma superpotência, também lhe caberia por inerência o exercício da soberania a nível mundial. Para os defensores desta ideia — que em última instância se transforma numa espécie de «teoria da conspiração da globalização» (pág. 20) —, são dignas de anátema as seguintes palavras: «Pretendemos que o Império é melhor [do que o imperialismo], da mesma maneira que Marx sustentava que o capitalismo era melhor que as formas de sociedade e os modos de produção que o haviam precedido. A concepção de Marx assentava numa repugnância lúcida e saudável perante as hierarquias provincianas e rígidas que antecederam a sociedade capitalista, mas também no reconhecimento do facto de a nova situação aumentar o potencial de libertação. Do mesmo modo, podemos ver hoje que o Império liquida os regimes cruéis de poder modernos e aumenta, por isso, as potencialidades libertadoras» (pp. 62‑3).
No derradeiro parágrafo do prefácio, diz‑se que o leitor deverá pesar o facto de a obra ter sido escrita no intervalo de duas guerras: a do Golfo e a do Kosovo. Urge, pois, colocar a pergunta: Em que medida, do ponto de vista da construção do Império, teria a Guerra do Iraque alterado os dados da análise? Na verdade, contrastando com as anteriores, esta teve um cunho marcadamente preventivo e unilateral. Atendendo a tais factores, não serão eles de molde a reforçar a posição de quem argumenta a favor do modelo unipolar? Fica a questão.

EURICO CARVALHO


In «O Tecto»,
Ano XVIII, n.º 54,
Julho/2006, pág. 2.

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