segunda-feira, 13 de março de 2006

CARTAS DE MEMÓRIO A CÁRMEN [I]

PRIMEIRA CARTA

Cresceram por de mais as minhas orelhas de burro. A elas, orelhas de leitor, devo eu, guarda‑livros do deserto, o peso de certas palavras estupidamente nobres, decadentes símbolos da gravidade. Se em mim houvesse força bastante e capaz de as rasgar com garras de tigre, brotaria sangue com certeza: elemento maior de uma escrita sem mestre. Mas talvez o meu talento (se o tenho deveras, como dizes, Cármen) seja tão‑somente o grosseiro arroto de um deus distante e avarento.

É esse, penso, o sinal de qualquer infância: para umas garras muito curtas, que arranham apenas, orelhas demasiadamente longas, espetadas no ar: antenas da cultura.

Como substituir o passo paciente do burro, animal de carga da tradição, pelo salto ligeiro do tigre? O passo é seguro; o salto, já se sabe, perigoso. Corre‑se o risco de saltar antes do tempo. Corro o risco de não saltar. Entre o vazio do céu e a biblioteca do mundo estico por enquanto a corda da reflexão, a mesma que me há‑de enforcar.

P.S. — «Tolle, lege!»

AMOR & FILOSOFIA

A mitologia platónica do Uno parece encontrar no amor o seu último reduto metafísico. Nesse âmbito, é certo, continuamos a ser monoteístas: o pluralismo extremado surge‑nos ainda como uma espécie de prostituição do ser. Tudo isto nos leva a concluir que as «razões do coração» permanecem na razão como em sua casa. E o sentimento revela‑se então: filho exemplar da palavra, metamorfose axiológica do conceito. Por isso se deixa enredar numa gramática particularmente severa para com os erros or(t)ográficos. A «lógica» da sensação — e da sua organização inorgânica num corpo excêntrico (fora da tutela burguesa do organismo) — é outra coisa. Fala‑nos da leveza, inconseguida no reino cristológico do amor.

A dor é centrípeta; o prazer, centrífugo. Não por acaso, os tristes são egocêntricos. Ora, há uma axiomática — historicamente determinável — da tristeza: chama‑se Metafísica. Esta ramifica‑se em duas variantes (sendo uma teórica e a outra, prática): a Filosofia e o Amor, ou seja, a paixão do conceito e a acção do sentimento. O lugar destas duas disciplinas metafísicas, ou melhor, disciplinadoras da subtil física dos corpos, é essa extraordinária invenção do Ocidente: a alma, o absurdo espectáculo do olhar. Por fim, o metafísico, amoroso ou filósofo, escravo das Formas, retira a sua máscara e mostra‑se. Tem o rosto de um «voyeur».

Somos os eternos amorosos, os servos da tristeza. Amor que rima com dor nos doze anos de nós todos. O desejo — que arrisca o deserto — é esse excesso que nos perturba o sono de almas bem educadas pelo silêncio. Com medo do que não se define, fazemos do ente recortes do jornal. Mas entre o bordel e a família, foge‑nos a fronteira que separa o erotismo da pornografia. À procura, sempre!, do derradeiro vocabulário do amor — doença epistémica —, pagãos até, por vezes, no estudo dos orbes celestes, nas coisas da Terra desconhecemos o iconoclasmo, crianças cheias de vergonha com receio de professores virgens. E os deuses riem‑se de nós...

Eurico de Carvalho

Texto publicado em Junho de 2003

no jornal «O Tecto» de Vila do Conde

(Ano XV: N.º 41).

Cf. página 9

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