PELOURINHO DA LÍNGUA PORTUGUESA [IV]
A propósito da polémica estado‑unidense em torno do aborto, há um verbo que tem sido objecto de uma violação sistemática do seu ingénito campo semântico. Ei‑lo: «reverter». Em português de lei, significa, acima de tudo, «voltar ao ponto de partida», não possuindo, de modo algum, o sentido que lhe é dado pela maioria dos meios de comunicação, ou seja, o de anular ou revogar. Com vista à denúncia desta confusão (resultante da macaqueação do Inglês!), atentemos neste excerto de um comentário de Sónia Sapage, jornalista do Público: «A decisão do Supremo Tribunal dos Estados Unidos da América de reverter [sic] o direito de acesso ao aborto legal não dividiu só os americanos (27/6/2022). Evidentemente, onde está «reverter» deveria estar (em bom português!) «revogar».
Infelizmente, são legião os jornalistas que não dominam o Português nem o Inglês. Refugiam‑se, então, na sua ignorância, servindo‑se preguiçosamente dos tradutores automáticos. Qualquer leitor poderá fazer o teste e confirmar a justeza do nosso libelo.
Eurico de Carvalho
P. S.1 — Na mesma edição do jornal — e no âmbito do tema supracitado —, Sofia Lorena serve‑se de «reversão» (óbvia tradução automática de reversal) para fazer referência à revogação da sentença relativa ao caso «Roe vs. Wade».
P. S.2 — Em bom rigor, «americanos» deveria ter uma inicial maiúscula.
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