segunda-feira, 27 de março de 2006

CARTAS DE MEMÓRIO A CÁRMEN [III]

TERCEIRA CARTA

«Cármen, há um rio que já não corre na minha garganta.» É esta — lembras‑te? — uma frase cuja sintaxe promove o rapto do meu sono e me traz impiedosamente de volta a igualdade dos dias dogmáticos, e aos quais devo, impotente, uma estúpida vassalagem. Assim se amontoam as semanas, essas montanhas onde o Sol se envergonha. Com a difícil ajuda da clepsidra escolar, kantianamente as tomo de assalto. E é este o sóbrio resultado: me sinto sem alma nem para merecer, como te disse já, a alegria eventual de um sorriso de mulher.

Na minha garganta não ri nenhum rio. Sem norte, atolado nesta igualdade, a dos dias iguais, esqueci o canto e as noites. Agora é tarde: aqui, no Sul, à luz de um Sol azul, com os ouvidos cheios de uma pronúncia irritantemente surda, crescem as ervas, mais que daninhas: danadas, da Grande Depressão. É isso: um deus soltou‑se de mim!

Há um rio que já não corre no meu leito. Tenho‑a seca, a voz. Só me resta a prosa aguada — e a sopa de letras com que engano o estômago.

Quando um homem se descobre, incrédulo, com a idade que não devia ter, interrogando‑se nobremente sobre o seu destino, angustia‑o com certeza a medonha possibilidade de não estar à altura de si próprio. Que vale o talento sem a vontade? Sem ele, torna‑se um fardo que se carrega com a dolorosa consciência de quem fez da alma um consultório analítico.

P. S. — «Tolle, lege!»

O CORPO, ESSE OBSCURO OBJECTO PNEUMÁTICO

O seu corpo, naturalmente dinâmico, dá‑nos motivo bastante para levar a cabo a serôdia denúncia do absurdo de ter havido uma Física do repouso. Dizendo «Não!» ao retrato do princípio do século XX, todo o seu ser — parece‑me — clama pela velocidade como se fosse, de súbito, incendiado pelo vento que sopra do Norte. Que sirvam aqui de exemplo fácil os seus cabelos soltos por lembrarem as crinas inesperadas de um equídeo habitual, cujo movimento, acompanhando o das estrelas fixas, acaba (e não é pouco!) por pôr a nu a inocência biversal do patético filósofo. Mas desnuda‑a de que modo? Refutando o intrínseco lugar das coisas, todo o lento cerimonial do espaço. Na verdade, o movimento — sabemo‑lo agora — só ao tempo pertence. Se o não soubéssemos já, bastaria então, para colmatar tal ignorância, trazer à luz o curso inolvidável de um tão obscuro objecto, o corpo, isto é, entenda‑se: não o orgânico, mas o pneumático. Deste, naturalmente dinâmico, que melhor registo que o do brilhante cinematógrafo? Das artes dita a sétima, órfã ainda de musa, apenas ela, julgo, se revela capaz de cumprir a demonstração última da beleza. Como? Sem mais, mostrando‑a.

Eurico de Carvalho

Texto publicado em Junho de 2003

no jornal «O Tecto» de Vila do Conde

(Ano XV: N.º 41).

Cf. página 10.

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