terça-feira, 11 de abril de 2006

CINCO PARÁGRAFOS DE UM LIVRO POR VIR [III]

§3

O mocho e a águia. — E caminha solitário como o rinoceronte aquele que se dizia feito para a luz. Tem, já muito perto da loucura, dois leitores apenas na Europa. O seu pensamento respira agora o ar puro da montanha — e aí, à semelhança do pássaro real, levanta voo pela manhã. Com ele, a filosofia muda de rosto: deixa o cadáver do passado à erudição do mocho e avança decididamente para o futuro. Os olhos com que o olha lembram os da águia a perseguir a sua presa. E esta, para espanto do mundo todo, é a própria Moral: a Circe dos filósofos!

Quem não conhecia o seu centro — fazer do pensar uma forma de vida! — considerava‑o excêntrico. Há‑de morrer em Weimar, fora de si, o criador de Zaratustra. Morrerá à altura do seu destino, é certo, mas só, esse que acima de tudo prezava a amizade. Chamava‑se Nietzsche. E era afinal a velha criança de sua mãe.

Eurico Carvalho

Texto publicado em Março de 2003

no jornal «O Tecto» de Vila do Conde

(Ano XV: N.º 40). Cf. página 5.


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