quarta-feira, 7 de outubro de 2009

EM MEMÓRIA DE GIORDANO BRUNO


Estaremos sós no Universo? Trata‑se de uma pergunta tão velha quanto o homem, que sempre quis ver nas estrelas o ponto de fuga da sua angústia de animal acossado pela morte. Mas a resposta que lhe deu um certo habitante de Nola, de cuja audácia a fogueira do Santo Ofício foi o preço infame, teve o brilho imperdível da cauda imemorial de um cometa — a rasgar o imenso hímen teológico da pequena consciência de inúmeros terráqueos. Estávamos em 1600. Oito anos de clausura e suplício não tinham demovido o espírito de quem pregava a infinidade dos sóis e dos mundos. Que as cinzas da carne do Nolano viessem a ser estrume do Campo das Flores, isso seria o menos. (O mais, sim, esperá‑lo‑ia à porta do futuro: a eternidade de uma estátua.) Antes da viva queima, porém, e para que não incendiasse o povo de alma românica e volúvel, cortaram‑lhe cerce a língua de fogo. Resta‑nos agora, e desde há cento e dezanove anos, mesmo sob o olhar culposo do sucessor de Pedro, a melancolia de uma imagem desolada de monge, de mãos que entrelaçam o vazio, e ainda à espera, à semelhança de Galileu, de um perdão que tarda irremediavelmente.

Num livro admirável — e justo objecto de um louvor mundial —, que apenas peca pela ausência de quaisquer referências à figura lunar de Giordano, Carl Sagan, ilustre astrónomo norte-americano, também se interrogou, três séculos depois, sobre a eventual existência de vida extraterrestre inteligente:

«Toda a vida me tenho interrogado sobre a possibilidade de existência de vida fora da Terra. […]

«Nas trevas, entre as estrelas, existem nuvens de gás e poeira. Aí foram encontradas, por meio de radiotelescópios, dezenas de moléculas orgânicas diferentes. A sua abundância sugere que se trata de um fenómeno universal. Talvez a sua origem e evolução sejam, desde que haja tempo suficiente, uma inevitabilidade cósmica. Mas pode ser que a vida, nalguns dos milhares de milhões de planetas da Via Láctea, nunca apareça. Noutros, pode nascer ou morrer — ou jamais evoluir para além de formas muito simples. E haverá porventura lugar, numa pequena fracção de mundos, para o desenvolvimento de inteligências e civilizações superiores às nossas» (Cosmos, ed. port. de bolso, trad. adaptada, pág. 34).

Se tivesse sido Sagan contemporâneo do Nolano (pela miraculosa via de uma estapafúrdia máquina de viajar através do tempo…), não lhe seria dada outra saída senão, por força da ousadia da hipótese que acima grifámos, a sujeição à mesma saga inquisitória. Para quem não compreenda a sua razão de ser, há que ter em mente o extraordinário impacte epocal dessa avançada especulação cosmológica, na medida em que ela atinge o próprio fundamento da relação da Humanidade com Deus. Basta atentar na Terra enquanto locus Revelationis. Afinal, se outras Terras houver, fará sentido privilegiar a nossa? Quantas Revelações haverá? Terá sido única a Encarnação? E a Paixão? São infindáveis, portanto, as questões susceptíveis de ferir mortalmente a ortodoxia.

Muito longe estamos nós, no entanto, desse ambiente deveras bruno. No último quartel do segundo milénio, por exemplo, o que fazia sonhar os cientistas não pesava senão dois quilos: ALH84001, de seu nome. A designação que lhe coube reflecte a nomenclatura de que se servem os cientistas norte‑americanos para catalogar meteoritos. Neste caso, as letras identificam o local da colheita (a região de Allan Hills); os dois números iniciais apontam para a data da recolha; e, por fim, os três últimos assinalam o facto de ter sido o primeira, à época, a ser recolhido nessa área da Antárctida. Embora o tenham descoberto em 27 de Dezembro de 1984, só se tornou realmente célebre, é certo, quando a NASA anunciou, no dia 6 de Agosto de 1996, a suposta existência, no interior dessa pedra dos céus, de vestígios de uma vida fóssil marciana. Que excitação! Marte transpunha — finalmente! — os portões da imaginação literária e popular, colhendo, de igual modo, as boas graças da sisuda ciência. Não tardou, contudo, a água fria do cepticismo… Afinal, era falso o alarme!


Eurico de Carvalho

In «O Tecto»,

Ano X, n.º 63,

Abril/2009, pág. 9.

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