quarta-feira, 14 de outubro de 2009

O FUTURO DA EUROPA


«De todas as cinco partes do Mundo — dizia Eça de Queiroz, em Paris, oito anos antes da sua morte —, a Europa, apesar de tão gasta, permanece incontestavelmente a mais interessante; — e só ela, entre todos os continentes, constitui na realidade um continente geral de instrução e recreio.» E nela, de facto, à época, em 1892, reconhecia apenas a existência de três «faróis da civilização»: Alemanhaterra metaphysicæ —, França, donde lhe vieram os modelos literários (para além da «hugolatria», melhor seria falar de Balzac, em especial, Flaubert e Zola), e, por último, Inglaterra, pátria do capitalismo e do empirismo (e sabemos bem a dívida axiológica da ciência, enquanto conhecimento posto ao serviço da exploração total da Natureza, em relação a esse regime social — ideologicamente assente na «sobrevivência do mais forte» — e à corrente do pensamento que vê na experiência a pedra‑de‑toque da verdade). Para todos os efeitos, temos aqui, de uma forma esquemática, uma visão eurocêntrica da cultura.

Quarenta e três anos depois, em Viena, Edmund Husserl, filósofo alemão, de origem judaica, dava uma conferência, que se tornou célebre, sobre a crise da humanidade europeia. (Não se perdera ainda a memória da Grande Guerra, mas já crescia sobre a Europa a terrível sombra do regime hitleriano.) Embora o dissesse numa linguagem mais sofisticada — e com uma aguda consciência da historicidade do devir do espírito europeu —, o mestre de Heidegger, que dele se afastou, aliás, por razões que se prendem com a ascensão do nazismo, não ia além, no essencial, do discurso queiroziano, reafirmando, pois, a especificidade europeia: «Há, na Europa, algo de único, que todos os outros grupos humanos reconhecem em nós, e que é, para eles (independentemente de toda e qualquer perspectiva utilitária, e mesmo se a sua vontade de conservar o próprio espírito se mantém intacta), uma incitação a que, contudo, se europeízem cada vez mais, enquanto nós, desde que de nós próprios tenhamos uma boa compreensão, nunca (por exemplo) nos indianizaremos

Em que consiste, afinal, segundo Husserl, esse carácter singular da europeidade? Numa atitude puramente teorética perante a vida e o mundo, ou seja, totalmente oposta à práxis natural dos primeiros homens. (A sua origem histórica remonta à Grécia Antiga. Terá nascido, entre os séculos VII e VI a.C., na colónia helénica de Mileto — a pátria de Tales, Anaximandro e Anaxímenes —, e cujas ruínas, curiosamente, são hoje património da Turquia.) É nesse perfil atitudinal, cuja emergência entre os gregos lhes dá a imortalidade da fama, que reside o interesse — absolutamente inédito — pelo Todo, ou melhor, por tudo aquilo que não pode ser objecto de experiência imediata. Designando a actividade de problematização do real, do ponto de vista da sua totalidade, com seu nome de baptismo — φιλοσοφία —, nela reconhecemos, desde logo, o esplendor auroral de uma humanidade que quer pensar acima do círculo mesquinho da existência quotidiana, ou seja, que começa a ser livre.

Como é bom de ver, não devemos confundir a figura espiritual da Europa, a sua figura grega, com os seus limites geográficos, tanto mais que estes últimos, por sua vez, nem sequer se revelam, à primeira vista, suficientemente claros. Com efeito, não existe, propriamente falando, entre a Europa e a Ásia, uma fronteira natural, ainda que se admita, de maneira geral, que as separa uma linha imaginária, passando esta pela cadeia montanhosa dos Urales e pelo Cáucaso. Seja como for, se quisermos saber a morada da europeidade, só teremos de seguir o movimento do Sol: onde ele cai, de facto, mora o espírito europeu, sendo, por isso, inteiramente justo que, a propósito da sua expansão planetária, que se afigura imparável, se fale de ocidentalização.

De que crise, no entanto, nos dava notícia a conferência husserliana? Interpretando‑a como um fracasso aparente da Razão, de que a tomada de posse de Hitler como chanceler da Alemanha seria o fatal prenúncio empírico, a verdade é que o pensador judeu acreditava que a força do espírito venceria o ódio que lhe tinha o nazismo. Mal imaginava ele, todavia, o advento da máquina infernal do Holocausto.

Entre quarenta e cinquenta milhões de mortos — eis o preço absurdo da Segunda Guerra Mundial. O «continente geral de instrução e recreio», de que Eça nos falava atrás, tornar-se-ia um gigantesco matadouro. É neste contexto que há que compreender a importância fulcral, para o futuro da Europa, da assinatura do Tratado de Paris — e consequente fundação da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA). Em 18 de Abril de 1951, dava‑se efectivamente o primeiro passo, o mais difícil, aliás, no sentido de uma reconciliação franco‑alemã, sem a qual, naturalmente, não teríamos tido a possibilidade de assistir à construção do que viria a ser, a partir de 1 de Janeiro de 1958, ou seja, há cinquenta anos, uma verdadeira comunidade de nações, sob a égide, ainda que mais tarde, em Novembro de 1993, da bandeira azul da União Europeia.

Exceptuando alguns casos particulares e aberrantes de excessos nacionalistas (advenientes, em última instância, da queda — a 9 de Novembro de 1989 — do Muro de Berlim), ultrapassou já o meio século de existência a coabitação pacífica dos Estados da Europa. É bom lembrá‑lo, sem dúvida, e também devemos dizê‑lo, de resto, em voz alta — para que abram definitivamente os olhos todos os que, de forma míope, continuam a ver na União Europeia, pura e simplesmente, um mercado comum: mero espaço de circulação de bens e serviços. Ora trata‑se, acima de tudo, de acordo com o espírito dos seus fundadores — e parafraseando o título de um escrito kantiano —, de um projecto de instauração de uma paz perpétua entre os povos: «Os Estados com relações recíprocas entre si — escrevia Immanuel Kant em 1795 — não têm, segundo a Razão, outro remédio para sair da situação sem leis, que encerra simplesmente a guerra, senão o de consentir leis públicas coactivas, do mesmo modo que os homens singulares entregam a sua liberdade selvagem (sem leis), e o de formar um Estado de Povos, que (sempre, é claro, em aumento) englobaria, por fim, todos os povos da Terra.» Não por acaso, o filósofo das Luzes invoca a Razão como único fundamento possível para a Paz. Mas se a Europa quiser realmente reencontrar a sua figura espiritual, a sua figura grega, não poderá admitir que a encerrem, e para toda a eternidade, como alvitram tantos dos seus pretensos defensores, numa fortaleza armada e dirigida por um directório de grandes países (os mesmos de sempre, segundo o discurso queiroziano). Assim, e em conformidade com as derradeiras palavras supracitadas, o futuro da Europa é tornar‑se mundial.


Eurico de Carvalho


«O Futuro da Europa» — In O Tecto.

N.º 62 (Ano X). 2008 (Out.), p. 9.

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