quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Amar

Amar por Eurico de Carvalho



(Para Almeida Garrett.)



Não sei, amor, amor que não amar,
nem vinho que em mim não seja ceia.
Bebê lo é termos lenha que se ateia,
quando a Lua encontra o seu lugar.

Amar, amor, é ser maior, amigo
de quem colhe em nós o nosso alor.
(Sabê lo ei colher eu, que o digo,
se além destas palavras não for?)

Não sei amar, amor, senão por ti,
mas sempre, mulher, confesso!, menti
por haver outra a seguir ao beijo.

Não sei, se não te amo, amor, amar te
por ser por mor de mim o meu enfarte.
Amar, amor, era amar sem desejo!

Eurico de Carvalho
In «O Tecto»,
Ano XVIII, n.º 56,
Julho/2007, pág. 13.

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quarta-feira, 13 de julho de 2011

E. and I

  E. and I por Eurico de Carvalho



Ouvir-te é como se fosse marinheiro
de regresso a casa: Ulisses
dançando com Penélope.

Sentir-te é ser o perfume que te abre passagem
n’el mezzo del cammin di nostra vita: Dante
acenando a Beatriz.

Ver-te é como se tu fosses música
acesa em viva carne: Pedro
lembrando Inês.

Tocar-te, porém, é outro incêndio: pura alacridade,
corrente eléctrica nunca alterna
lavrando a adolescência do porvir.

 

EURICO DE CARVALHO

In «O Tecto»,
Ano XIV, n.º 37,
Julho/2002, pág. 2.


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sábado, 18 de junho de 2011

Doze de Novembro

Doze de Novembro por Eurico de Carvalho





Entraste em minha casa ainda com certeza

de haver luz em Novembro. Mas doze eram

os dias, se bem te lembras, mulher, desse mês

incandescente. Deste-me logo o braço para a dança

das palavras: castanhas docemente assadas e muita

água-pé. (Estava, quando vieste, à espera do ouro

dos versos.) Pois não tremeste perante a juba negra

de um leão quase jovem, de partida para o Inverno.

Dos livros que cedo li tiraste-lhes o peso do pó

sábio. E se agora escrevo no Verão, meu amor,

só tu sabes porquê. (Deixa-me dizê-lo a toda a gente.)





Eurico de Carvalho/17.06.05

Poema publicado em Fevereiro de 2006 no jornal «O Tecto» de Vila do Conde

(Ano XVIII: N.º 52). Cf. página 10.




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quinta-feira, 14 de abril de 2011

Manifesto em Forma de Ser

Manifesto em Forma de Ser por Eurico de Carvalho




1. Em defesa de sermos proponho o Poema.
1.1. Para que o poeta — e cito — tudo sinta e cumpra o pastoreio do Ser.
1.2. A saber o sabor sóbrio da Palavra.
1.3. A dizer‑se alegre sem esforço fácil.
1.4. Em falar a fala do falo.
1.5. Eu falo.

2. Em defesa de sermos sonho‑me muito.
2.1. Que sempre aprendi a prosa de vir‑me.
2.2. Que quero querer aquilo que quero.
2.3. Como aliás a lilás ali possa.
2.4. Pois perder‑me da morte é ter‑me agora.
2.5. E agora creio por recreio.

3. Em defesa de sermos desamarro a muralha.
3.1. Acho‑me em achar.
3.2. E racho a acha do archote.
3.3. E adivinho o vinho de ver‑vos
3.4. Onde por ver‑vos beba o Verbo
3.5. Sou e assumo o sumo de mim.

4. Em defesa de sermos desde o adeus digo.
4.1. O desejo cedo ceda à sede da ceda
4.2. Porque porquê é de mais perguntar à pergunta.
4.3. Logo resposta posta ao rés‑do‑chão.
4.4. Se válido é o já lido lado vão.
4.5. Se ser é desviar‑se sendo a larva borboleta.

5. Em defesa de sermos desloco o óculo.
5.1. Alugo a carruagem sem janelas lendo olhos.
5.2. Se nelas a viagem gera o logro da aragem
5.3. Se nelas neles as sentinelas são.
5.4. É sermos sem sermão.
5.5. E se a dor me ser seja quase adormecer.


Eurico de Carvalho

In Campo Alegre — Colectânea de Poemas,
Porto, 1986.

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domingo, 13 de fevereiro de 2011

Anunciação

Anunciação por Eurico de Carvalho



Nem sei como dizer-te a alegria com que espero

a palavra mais lúcida, secreta e semovente.

Dela, sabe-lo, se alimenta em pleno espaço

a incerta rotação dos amantes e a certeza

de ser seu o repouso. Seja ela a rosa de cristal

que amanhece em tua boca adolescente. E, crê,

por entre o orvalho — hálito da manhã —,

nunca será nosso o esquecimento do Sol.






Eurico de Carvalho


Poema publicado em Dezembro de 2002

no jornal «O Tecto» de Vila do Conde

(Ano XIV: N.º 39).

Cf. página 2.











 








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